18.4.08

Limite

Ela não sabe mais o limite entre o certo e o errado, entre o normal e a loucura. Nem sabe mais exatamente o que prefere. Prefere não pensar, prefere apenas passar a noite com ele. Deseja vê-lo de perto, sentir seus lábios, sua língua, seus dentes, seu cheiro. Suas mãos passando pelas costas dele, seu corpo sendo desvendado pelas mãos dele. O som da respiração dele quando ela beija seu pescoço, sua orelha, seu sexo. Deseja ver os olhos dele encarando os seus enquanto a satisfaz. Os olhos a enlouquecem. Deseja satisfazer-se e satisfazer, ser dominada, abusada, escravizada. Suas unhas, os dentes dele na carne. O suor. Os dedos entre os cabelos. A língua pela pele. Súplicas, gemidos. O abraço, os olhos fechados. O repouso. A música que já estava tocando. E nessa hora deseja sempre dizer algo que não sabe como, algo relativo à importância do que acabou de acontecer. Algo que mostre que não é qualquer um, é um, é único, mas tem medo de parecer boba, patética. Acaba indo embora, sabendo que isso sim pode ser a maior loucura, o maior erro, não compartilhar seu sentimento com medo do não. Acaba preferindo apenas o seu cheiro até o amanhecer do que a sua companhia.

Imagem: "Dánae" (1907/08), de Gustav Kimt

4 comentários:

Mila disse...

Eu faria o mesmo, ir embora e terminar a noite sozinha.
Maaaas, como eu não aconselho as coisas que faço (e vice-versa), acho que 'ela' deveria ficar e dizer tudo o q ela sente vontade.

Mike disse...

grande bel...
este é o grande mal da contemporaneidade, a dificuldade de entregar-se. sei lá, acho q vc (ou a personagem ficcional de seu relato) deveria ter se entregado, deixado ver no que dá... e se não tivesse rolado, tudo bem, no mínimo a dúvida não continuaria flutuando em ondas pelo ar.

disse...

Eu sofro do mesmo mal da personagem e da Mila. E é definitivamente um mal, acho. :( Lindo texto.

Tay Highway disse...

Ainda sou da parte que acha melhor fazer e ver no q dá, do que não fazer e ficar pensando no como teria sido.