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9.2.10

Adolescência

O calor estava infernal. Janeiro. Ela na cama, lendo uma revista, ele no computador, a mãe dele na sala, assistindo qualquer coisa na programação dominical, é tudo igual mesmo.

Não bastando o calor que fazia, ainda tinha aquele calor próprio dos namorados quando impedidos de ficarem como desejam. Abraçaram-se, beijaram-se e o clima esquentou mais alguns graus. A porta do quarto aberta, seria muita bandeira fechar, na TV alguém voltando pra terra natal. A cada segundo a temperatura aumentava, e a cada suspiro vindo de fora do quarto se largava, se recompunham, e logo depois recomeçavam. Até o suor que escorria da pele fazia barulho.

Como em todos os dias quentes, a tempestade se anunciou com ventos fortes, refrescando um pouco o ambiente. Logo nas primeiras rajadas de vento, puff! Cai a rede elétrica, em casa volta logo e com ela alguém ensinando a adestrar um cão, escuridão total na rua.

Ela decide ir embora, passa pela sala, despede-se. Ele vai atrás, bate a mão no interruptor da luz da garagem, fingindo acender a luz. Na garagem, breu total. A tempestade alivia o calor, mas não os ânimos. Tal como acontece no clima, outra tempestade anuncia-se, tendo o beijo como os primeiros raios e trovões. Ninguém na rua, nem próximo de onde estavam, na garagem. Entre os corpos o que ocorre é uma tempestade tal qual a que vem do céu, vem violenta e rápida como as chuvas de verão, rápido só para aliviar a sede da terra e clarear o céu, rápido pra não dar tempo pra ninguém perceber, rápido só pra refrescar.

Ainda durante o último beijo, aquele já mais calmo, os dois se recompõem. Não chove mais, o céu já tem estrelas. Foi embora se sentindo uma menina fugindo dos pais, fazendo tudo o que não se pode fazer, tudo escondido. Aos quase trinta, é bom se sentir uma adolescente. Com a vantagem de ter um carro, claro.

18.4.08

Limite

Ela não sabe mais o limite entre o certo e o errado, entre o normal e a loucura. Nem sabe mais exatamente o que prefere. Prefere não pensar, prefere apenas passar a noite com ele. Deseja vê-lo de perto, sentir seus lábios, sua língua, seus dentes, seu cheiro. Suas mãos passando pelas costas dele, seu corpo sendo desvendado pelas mãos dele. O som da respiração dele quando ela beija seu pescoço, sua orelha, seu sexo. Deseja ver os olhos dele encarando os seus enquanto a satisfaz. Os olhos a enlouquecem. Deseja satisfazer-se e satisfazer, ser dominada, abusada, escravizada. Suas unhas, os dentes dele na carne. O suor. Os dedos entre os cabelos. A língua pela pele. Súplicas, gemidos. O abraço, os olhos fechados. O repouso. A música que já estava tocando. E nessa hora deseja sempre dizer algo que não sabe como, algo relativo à importância do que acabou de acontecer. Algo que mostre que não é qualquer um, é um, é único, mas tem medo de parecer boba, patética. Acaba indo embora, sabendo que isso sim pode ser a maior loucura, o maior erro, não compartilhar seu sentimento com medo do não. Acaba preferindo apenas o seu cheiro até o amanhecer do que a sua companhia.

Imagem: "Dánae" (1907/08), de Gustav Kimt

3.3.08

45 (Entreato)

Numa tarde comum, quente, quando a ela saía da escola, ele a esperava na porta. Não dava pra fugir.

- E se a gente fosse tomar alguma coisa, pra conversar sobre o que aconteceu?

Ela não resistiu, foi. Sentaram-se na mesa de uma padaria, pediram uma cerveja. Antes de terminar a segunda, pediram a conta. 15 minutos depois estavam num quarto, à meia luz. Ouviu a chave girando atrás dela, as mãos suando, como sempre.

Abraçou-a por trás e começou a tirar sua roupa. Com suas mãos no cabelo dela, puxando-os, decidia o que fazer e o que ela deveria fazer, controlava-a. Queria fazer daquela noite algo inesquecível para aquela mulher que acreditava ter acabado de conquistar. Iria dominá-la.

Ela não ofereceu resitência alguma, divertiu-se com seu jeito, entrou na brincadeira. "Só em pensamentos isso teria acontecido até então", pensou enquanto ele prendia suas mãos para trás com seu cinto. Permitiu-se viver suas fantasias, a loucura já estava feita.

Chegaram ao final quase juntos, numa sintonia que ela nunca havia experimentado. Ele se deitou sobre peito suado dela, ambos ofegantes, trocando delicadas carícias. De repente se ouviu um silêncio tão ensurdecedor quanto a fala que o sucedeu:

- E agora, "professora"?

Dias atrás já não a chamava mais assim. A pergunta desconcertou-a.

- Como assim?

- Ainda somos aluno e professora, seremos até o final do ano. Como vou te encarar na sala de aula? Manter distância, prestar atenção na aula com você em pé, na minha frente, depois do que aconteceu aqui? Não sei se consigo.

- Eu também não sei.

Tomaram banho, cada um foi para a sua casa. Ela levou quase uma semana pra conseguir contar pra amiga mais íntima. Ele ficou uma semana sem aparecer naquela aula.


Para quem não entendeu, as outras partes da história estão aqui:
45
45 (último ato)

25.2.08

45 (último ato)

Sexta-feira. Trabalhava na parte da tarde, tomava um banho e saía correndo rumo à outra escola. Seria exibido naquela noite o último capítulo da novela das oito, evasão escolar garantida. Provavelmente ela sairia mais cedo e encontraria suas amigas, vestiu-se mais à vontade, de vestido. Fazia um calor dos infernos.

As expectativas se confirmaram, poucos alunos na escola. Provavelmente ele não estaria por lá também. Ela subiu pra sala, encontrou pouco mais de meia dúzia esperando sua aula, mas ele estava lá.

Quarenta e cinco minutos depois bate o sinal, intervalo. Todos saem da sala, menos um, ele. Ela recolhe os materiais com a mão já suando, gelada. Só queria não querer, só pensava em não pensar. Caminhou até a porta, onde ele a esperava.

Pensamentos mil: não faça; faça; aproveite; fuja; corra, fique; encoste a porta; vá embora.

Ele fechou a porta, veio ao seu encontro.

- Professora, eu não estou brincando, você está me deixando louco.

- Você também está me deixando louca.

Beijaram-se. Os pensamentos na cabeça dela agora pareciam ferver, correr. Uma loucura, não conseguia mais pensar em nada, sentia as mãos, o cheiro, a pele, seu corpo de encontro ao dele, os sons que daquele beijo proibido. Deixou-se levar, completamente dominada por aquele rapaz. Sempre foi louca por homens dominadores, que não dão oportunidade de resistência, mas isso nunca tinha ido além dos seus sonhos secretos.

Ficaram ainda uma meia hora ali, sem falar quase nada, seguindo apenas suas vontades. A escola estava já vazia, os poucos presentes foram embora. Também não poderiam continuar ali. Fizeram o trato de jamais contar a ninguém, arrumaram-se e ele foi embora antes dela. Ela desceu as escadas ainda sem ouvir som nenhum, chocada com o que acabara de acontecer. Sentia suas pernas tremerem.

- Professora, me espere!

Susto. Uma colega chamando, tinha ficado um tempo na sala de aula corrigindo provas. No mesmo andar. Teria visto algo? Escutado algo? Teriam eles feito barulho? Ela não conseguia pensar mais, nem lembrar.

Nas semana que se seguiu voltaram a se encontrar, não na escola. Ela tinha quase todas as noites livres. Ele ainda faltou dois dias, só pra encontrá-la. Até o dia em que ele sugeriu algo mais sério. Entendia que na escola não poderiam se encontrar, mas queria uma coisa séria.

A professora não aceitou, mas foi ver seu prontuário na secretaria. Número 45 da oitava, suplência, por favor. Nome completo, filiação, endereço, nascido em 1989. 18 anos. Não era possível. Não estava apaixonada, mas foi um outro choque. Como pode sentir tamanha atração por alguém 10 anos mais jovem? E ele, o que viu numa professora, por que ela e não as meninas da idade dele?

Viram-se ainda uma vez fora da escola, e nunca mais se encontraram. Nunca ninguém soube de nada, exceto amigos muito íntimos dela, e dele, provavelmente. Ela ainda se pergunta o que ele teria visto nela.

21.2.08

45

Era já o final da aula quando aquele aluno a pediu, em particular, um conselho. Perguntou-lhe sobre teste vocacional, afinal, já estava na oitava série, no curso supletivo, em um ano e meio prestaria vestibular. Na mesma noite ela chegou em casa e foi pesquisar. Aquele rapaz chamava sua atenção. Ela, que nunca foi boa em guardar nomes, sabia muito mais do que seu número da chamada, o 45. Sentava-se na frente da sua mesa, quando tirava dúvidas sobre a aula, olhava-a nos olhos. Chegava a intimidá-la.

Na noite seguinte a professora entregou o bilhete com telefones de locais onde ele poderia realizar o tal teste.

- Professora, sei que está solteira, não quer ir ao cinema comigo hoje?

Ela sentiu como se o chão estivesse tremendo. Suas mãos ficaram geladas, e a voz demorou para sair. Balançou a cabeça, não. Olhou novamente em seus olhos.

- Você é meu aluno, não confunda as coisas.

Seu casamento havia terminado recentemente, não pensava na possibilidade de que alguém poderia convidá-la, sem mais nem menos, para ir ao cinema. Um aluno! Logo depois contou para as pessoas mais próximas e ouviu atentamente todo tipo de palpites:

- Ele é seu aluno, nem pense numa coisa dessas!

- Ele é adulto, você também, são livres. Fora da escola, não existe impedimento.

- Cuidado, você pode perder o controle da situação...

- Que legal! Ele é uma graça, não há problema algum!

A cada palpite ela ficava mais confusa. Resolveu esquecer aquele assunto, só o veria na semana seguinte, até lá já teria esquecido o susto. Mas passou os dias seguintes chocada com a proposta, tentada, e com vergonha de tudo o que estava sentindo.


(continua)