Hoje faz 8 dias que acordei sem o meu pai. Eu acordei, ele não. Estranho pensar que eu nunca tinha considerado a possibilidade de um dia ficar sem ele, embora desde que eu me conheça por gente sua saúde nunca tenha sido das melhores. Tabagista desde sempre e sedentário, sabíamos que ele tinha problemas de saúde.
Mas ele era meu porto seguro em casa. Era um companheirismo velado, algo não declarado. Mas o fato é que ele nunca tomou partido nos meus inúmeros conflitos com a minha mãe. Essa sim, sempre foi uma relação conturbada por incompatibilidade de interesses, pensamentos, opiniões. Nos piores momentos, o máximo que ele fazia era permanecer neutro. Nunca me criticou por nada que fiz, nunca me repreendeu. Orgulhou-se quando saí do colégio e fui fazer faculdade direto. Lembro até hoje do dia em que meu nome saiu no jornal, na lista dos aprovados no vestibular, e ele me acordou com o jornal nas mãos. O dia em que fui aprovada no concurso pra ser professora também foi uma festa, menor somente do que o dia em que assumi meu cargo e consolidei minha carreira. O sucesso da minha cirurgia também foi noticiado por ele por todo o bairro, exibindo-se pelo fato de agora ter uma filha mais bonita ainda. Cada vizinho que confirmava isso, ele vinha e contava.
Momentos felizes da infância também. Passeios e mais passeios, longos domingos rodando pelas estradas de terra que não davam em lugar nenhum. Domingos fazendo churrasco no clube e fugindo da chuva da tarde. Viagens, passeios, filmes na TV, no video.
Não é porque ele foi embora que digo isso tudo, nossa ligação era clara, óbvia. Embora não compartilhássemos das mesmas opiniões em tudo, nos respeitávamos. Em política nunca concordamos, mas sei que ele se orgulhava das minhas opiniões e foi com ele que aprendi a assistir jornais e criticá-los, desde muito cedo.
Acho mesmo que vamos nos encontrar, não é possível que acabe aqui, assim. Pena que parece que vai demorar agora. O que me conforta, e muito, é tudo isso que acabei de escrever. Entre milhões de abraços de pessoas conhecidas, amigas e desconhecidos, uma frase foi a que mais me tocou e a que eu talvez nunca me esqueça. "No final, só ficam as boas recordações, as lembranças boas". Quem me disse isso foi ele, o namorado, o jornalista, ou o fotógrafo. A pessoa sem a qual eu simplesmente não sei como teria sido passar daquele sábado até hoje, um outro homem da minha vida.
31.10.10
Um dos homens da minha vida
19.8.10
Do inferno ao céu em uma tarde
Hoje, 15h25:
- Quero ver se vou embora dessa escola hoje sem o meu boné! Vou pegar nem que seja a força, quem é você pra ficar com o meu boné?
Essas foram as palavras de um aluno logo após eu ter pego o boné dele. Dentro da minha escola existem algumas regras, embora não pareça, e eu as faço valer dentro da minha sala. O uso do boné, por exemplo, é proibido e todos estão cansados de saber. Por isso mesmo, esse costuma ser o artifício que alguns alunos utilizam quando querem provocar, ou mesmo testar o professor. A ‘criança’ em questão atrapalha as aulas, não faz absolutamente nenhuma tarefa, não usa uniforme, e costuma desacatar professores. Sim, eu também usei o boné dele pra testá-lo. Após dois pedidos para que retirasse o boné, na terceira eu mesma fiz, fui até ele e tirei. Agora só devolvo na presença do responsável. Resolvi, ou pelo menos estou tentando resolver dois problemas: provavelmente ele não usará mais o boné na sala, e eu ainda conseguirei chamar alguém responsável pelo garoto pra mostrar a situação dele na escola. Fato é que tudo tem seu preço, fiquei nervosa a ponto de tremer as mãos diante da ameaça que ele fez de arrombamento do meu armário.
Hoje, 17h20
- Professora, sabia que a senhora é a professora que eu mais gosto? A senhora é sempre carinhosa com os alunos, atenciosa, explica tudo várias vezes pra todo mundo, ta sempre sorrindo. Mesmo quando perde a paciência com alguém, continua tratando todos os outros muito bem. É como se a senhora fosse uma amiga nossa!
Essa foi uma aluna da sala que dei a última aula do dia, nos últimos minutos de aula. Parece que alguma coisa disse pra ela que eu precisava ouvir isso. Mas afinal, o que seria do bom se não existisse o mau, né? Problema é que damos maior atenção ao que nos desagrada e às vezes perdemos a chance de ouvir esse tipo de coisa.
7.7.10
Feel on black days
Eu trabalho na educação do Estado de São Paulo desde 2002. Entrei nela por opção, comecei e gostei de lecionar. Gosto de estar entre os alunos, gosto de aprender com eles, todos os dias. Não no pretérito, no presente, gosto e continuo gostando.
Porém, nesses oito anos, nunca a educação esteve tão ruim. É incrível notar como em tão pouco tempo, já me tornei alguém que pode dizer 'nossa, lembra naquela época, quando podíamos fazer isso, ou aquilo?'. Importante ressaltar aqui que a piora não é relativa aos alunos. Eles são sempre os mesmos. A piora vem do governo, que insiste em tratar o professor como lixo, como o último escalão do funcionalismo público, como o maior, se não o único culpado pela falência do ensino público.
Há anos estamos sem um aumento de verdade. Incorporação de gratificação não é aumento, Sr Governador, é aumento de arrecadação pra cofre público, no máximo. Há anos o Estado não oferece especializações, como 'naquela época' em que comecei a lecionar. Na TV tem propaganda disso, mas sou prova de que não tem absolutamente nenhuma opção para me aperfeiçoar, quero muito voltar a estudar.
A escolas estão num abandono que dá pena. Como a carreira de professor já não é nada atrativa, dia após dia professores afastam-se e deixam a sala de aula em busca de algo mais lucrativo e menos humilhante. Na minha escola, por dia, temos em média 10 turmas sem professor, já disse isso aqui. Eu, por exemplo, cuido de duas salas nos últimos 3 dias. Cuido, porque isso já não é lecionar. Acha que tô ganhando dobrado? Nem um centavo a mais no meu já mirrado salário. Faço isso simplesmente para que os alunos não se matem nem destruam e escola.
Acho incrível os pais que não notam que o filho vai pra escola e não tem aula. Acho incrível a imprensa ser tão vendida, ninguém fala sobre isso. Afinal, falar sobre a situação deprimente da educação paulista é acabar com a campanha presidencial do Sr. Serra, né? Ele não é o único culpado da nossa situação, mas o partido dele sim. Ano após ano, só fez piorar a educação. Reclamar de salário já tornou-se ridículo perante a nossa situação.
Mas afinal, quem liga pra educação? Acho que já é cachorro morto.
...
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir...
Deus lhe pague.
29.6.10
Keep yourself alive!
Ainda estamos no final do segundo bimestre escolar, mas a neura já começou, o que eu chamo de terrorismo psicológico. Hoje, numa reunião semanal que fazemos na escola do Estado, nossa coordenadora já nos informou que não devemos deixar os alunos com notas vermelhas. Se ele tirou 3,5 é melhor arredondar pra 5 mesmo. É sério. Justificou-se ainda dizendo que se o aluno ficar com vermelha, temos que ter tudo documentado, provando o motivo pelo qual o incompetente, ops, o aluno, não teve nota. Continuou dizendo que diretora, supervisora e dirigente iriam lá na escola comprovar tudo.
É engraçado como as pessoas perdem o senso do ridículo. Francamente, um aluno no Estado só reprova se for por falta, e o fulano tem que faltar muuuuito. Tem mais, com nota vermelha só fica aquele que não faz, não entrega nada e não participa. Tem aluno analfabeto (e muito) que tem nota, por simplesmente participar da aula, dos debates. Mas agora eu teria que deixar todo mundo com notas bonitinhas, até o vagabundo que vai pra escola só pra quebrar tudo e traficar.
Aliás, quebrar tudo tem sido uma das disciplinas mais assistidas pelos pequenos lá da minha escola. Afinal, a molecada tem ido pra escola e tem ficado sozinha, das 13h às 18h20. Não temos professores, a maioria afastados por motivo de doença. Eu mesma fiquei um mês por causa da cirurgia. Não temos professores substitutos, nada. Sendo assim, as crianças ficam lá, largadas, sem aprender absolutamente nada (que preste). Mas nem é só isso. Os que tem aula também estão prejudicados, pois junte cinco turmas de 40 alunos sem professor e veja se com o barulho que eles fazem é possível estudar. E não são só cinco salas por dia sem professor.
Por que será que diretoras, supervisoras, dirigentes, quando sentam a bunda na cadeira fofinha nunca mais voltam pra sala de aula? Será porque o trabalho é um lixo? Será que por acaso não é esse povo mesmo que está jogando o meu trabalho no lixo?
Acreditem, já sou uma espécie ameaçada de extinção.
Embora a música do título seja do Queen, agoratô ouvindo Semáforo, do Vanguart. Veio bem a calhar também.
Hoje é terça-feira
O céu borrou a cor
Ó minha mão do céu
Ó meu pé do chão
Ó minha mão do céu
Ó meu pé do chão
Eu não ouço vocês
Eu não ouço vocês (mais alto)
Eu não creio em vocês
Só acredito no semáforo
Só acredito no avião
Eu acredito no relógio
Só acredito
Eu só acredito
7.5.10
Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro
Tem dias mais difíceis do que os outros.
Não sei o motivo, mas tem dias em que simplesmente não consigo mais ouvir aquele papo idiota de 'bacana mesmo é a Bel, gordinha que se gosta, se garante, tá sempre pra cima.' Hoje na escola ouvi isso, senti vontade de sair correndo. Na verdade eu estou saindo correndo, poucos sabem, mas estou.
Se garantir? Quem fala isso não imagina o que é entrar numa loja e ter que levar a roupa que tem no seu tamanho, e não a que você quer. Não sabe o que é ouvir as pessoas dizendo 'nossa, mas você come tão pouco...' e interrompendo antes que diga '... então por que é tão gorda?'. Não sabe o que é olhar todos os dias no espelho e imaginar-se em outra vida, em outro corpo. Não sabe o que é ter que arrumar mil e um artifícios pra um homem olhar pra você sem ver o seu peso. Tornar-se atraente apenas pela inteligência e um pouco de beleza no rosto é, muitas vezes, desgastante. Não sabe o que é sentir-se como um prêmio de consolação, com tanta mulher gostosa no mundo, é isso que às vezes eu sinto. Rosto, sorriso bonito é o caralho. Tô de saco cheíssimo disso.
Neura? Sim, às vezes sei entrar numa neura profunda.
Amarga? Às vezes também sou.
Viu? Não me garanto, não sou 'pra cima' o tempo todo. É só olhar no espelho que não dá pra ficar muito pra cima.
1.4.10
Penas, testosterona e a grana que não vem
Lá vamos nós, mais uma história de um dia difícil na escola.
Temos 21 salas só no período da tarde. Hoje, 12 professores faltaram, ou seja, 12 turmas sem professores, zanzando pela escola, correndo, gritando, quebrando tudo. 12 turmas de 40 alunos cada, 480 adolescentes ociosos das 13h às 17h30.
Em determinado momento, achei que fosse presenciar algo que nem sei como definir. O fato foi o seguinte: 5 meninas de uma sétima resolveram brigar na mão com outras 2 de outra sétima pra descobrir quem era o grupo mais popularmente chamadas de galinhas. Até aí, tudo bem, algo até corriqueiro entre a faixa etária delas. Seria só mais um dia normal se não fosse um grupo de meninos no meio incitando a confusão já babando e com os olhos brilhando, meninos que sonham em trabalhar num filme pornô, os putos da escola, os chamados garotos prostitutos (acreditem, eles se autodenominam assim na sétima série).
Por uma fração de segundos, imaginei que ali aconteceria um bacanal, juro. Eu e uma outra professora ainda pensávamos se íamos lá separar ou se preparávamos a câmera do celular pra filmar e ganhar uma grana quando uma das diretoras, entidade temida até por nós, professoras, apareceu e, só com sua presença, dispersou o provável bacana hard core.
Uma pena pra todo mundo. As meninas ficaram com cara de quem tava quase lá e ficou chupando o dedo, os meninos realmente ficaram chupando o dedo, e nós, professoras, nada de uma graninha com filmes pornôs hard core. Putz.
26.10.09
Mais confissões
Sabe quando a gente passa uma vida toda driblando algo que a gente já sabe, mas prefere fazer de conta que não sabe? Aí, quando nos damos conta, a verdade é tão verdadeira que assusta.
Acho que tô me sentindo um patinho feio hoje.
Numa vala qualquer do teu cemitério racional
Numa esquina qualquer da tua cidade natal
E é um Deus nos acuda
Ninguém te ajuda
De madrugada quando as fadas dizem: "!tchau!"
E o que se escondia no porão
Sai pelos poros pela transpiração
E lava tua alma
Lava de vulcão
Porão - Fernando Deluqui/Humberto Guessinger
19.10.09
Confissões Musicais
A educação já não me satisfaz, cada dia vejo ela se deteriorar, pouco a pouco, e me sinto de mãos atadas. Hoje ouvi uma história de que nota 3,5 arredonda-se pra 5. Desde o início do ano se quero trabalhar num ambiente limpo eu mesma devo varrer minha sala. Até o estacionamento do shopping aumentou, menos o meu salário. Mas ainda sou bem moça pra tanta tristeza...
CANTEIROS
(Fagner roubando um pedaço do poema Marcha, da Cecília Meireles)
Quando penso em você
Fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa
Menos a felicidade
Correm os meus dedos longos
Em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego
Já me dá contentamento
Pode ser até manhã
Sendo claro, feito o dia
Mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter do mato
Um gosto de framboesa
Pra correr entre os canteiros
E esconder minha tristeza
E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza ...
E deixemos de coisa, cuidemos da vida
Senão chega a morte
Ou coisa parecida
E nos arrasta moço
Sem ter visto a vida
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
São as águas de março fechando o verão
É promessa de vida em nosso coração.
28.9.09
Dos interesses
Era uma vez uma menina que não via maldade em ninguém. Nos tempos mais remotos já ajudava os colegas da sala de aula com os deveres, trabalhos e contas. O tempo passou e ela sempre acumulou elogios à sua prestatividade, sua prontidão. Era capaz de ouvir durante horas uma amiga chorando, perder um domingo de sol pra ajudar nos deveres da escola, acordar cedo num sábado só pra acompanhar alguém numa missão.
O tempo passou mais um pouco e chegou a maturidade. Um dia percebeu que seus problemas, quase todos, sempre ficaram em segundo plano. Um dia ouviu falar que qualquer relacionamento só acontece na base da troca e a partir daí começou a analisar tudo o que recebeu e tudo o que compartilhou. Percebeu que as maiores frustrações ao longo da vida, até então, foram decorrentes de falta de atenção, pouco caso, falta de compromisso das pessoas que ela considerava mais próximas.
Notou que o problema dos outros sempre foi maior, os dela sempre foram quase nada, segundo plano. Notou o número de telefonemas e recados recebidos com os dizeres 'preciso de um favor seu', comparou esse número com o tanto de vezes que pediu algo pra alguém e foi atendida.
Percebeu ainda o quão disponível sempre se colocou a todos que precisassem, e comparou com o tanto de disponibilidade que sempre encontrou ao seu redor. Percebeu ainda o quão traída nessa disponibilidade ela já foi. Quantas vezes deixada pra trás, falando sozinha, pedindo pra ajudar.
Naquele dia percebeu que teve pouquíssimos amigos durante a vida. Boa parte desses amigos, alguns ainda presentes, sempre estiveram interessados na ajuda, na disponibilidade. Quando ela não existe, desaparecem. Naquele dia ela desejou como nunca o egoísmo. O desejo passou rápido, ela nunca foi egoísta e ao menos disso pode se orgulhar.
Os amigos? Passou a analisar antes o que cada um quer dela. Deseja apenas os que a procurem por nada, de graça, assim como ela procura as pessoas. Tornou-se uma pessoa mais sozinha, mas ainda insiste em acreditar nas pessoas. De graça.
11.8.09
Vergonha na cara, eu tenho.
Então tá... o recesso escolar foi prorrogado em São Paulo, o Estado, como sempre, ATRASADO. Mas o atraso é de se esperar, levando-se em consideração o interesse de quem estava em jogo. Agora, na hora de voltar, a grande preocupação, a reposição. Ok, aos sábados é possível, só gostaria de saber em qual escola todos os alunos e professores comparecem aos sábados. O que se vê é meia dúzia de alunos em cada sala, enrolando pra passar o dia e sem merenda.
Agora, o Sr. Secretário da Educação diz que algumas aulas podem ser repostas na Semana do Saco Cheio. HELLLOOOOOO!!!! Isso não existe no Estado!!! Na faculdade existe, mas certamente não é algo legalmente aprovado, é 'decretado' pelos alunos. No Estado trabalhamos direto de agosto até 21, 22 de dezembro! S eo Sr. Secretário da Educaação não teve a capacidade de olhar, simplesmente OLHAR um calendário escolar, era bom que isso fosse logo providenciado. 200 dias letivos? Já foi dito que não seriam obrigatórios, mas o Sr. Secretário manda mais, e tem que mostrar isso, vai repor sim.
Uma amiga me disse que é só pra inglês ver. Não acho que inglês seja tão burro, nem eles cairiam nessa. Tem dias em que sinto VERGONHA de ser professora do Estado. VERGONHA de ter um secretário que não sabe o que é um calendário escola. Ah, e claro, se não teve a capacidade de olhar um pedaço de papel, muito menos conhece a realidade na sala de aula.
Só VERGONHA me resta.
15.4.09
Das minhas frustrações
Acho que ninguém além dos que estão dentro da sala de aula pode falar sobre as frustrações que enfrentamos todos os dias. Desde que entrei para a Educação sempre me perguntei 'por que raios os professores não tem acesso facilitado com um psicólogo?'.
Lidamos todos os dias com problemas de aprendizagem, de indisciplina, familiares, patológicos, etc. Aprendemos a contornar passando por cima de todos esses problemas, mas não resolvemos quase nenhum deles. E o pior, isso vai acarretando as nossas famosas frustrações também.
Como é que conseguimos chegar ao final de um período com um sorriso no rosto? Quase sempre eu consigo, mas me cobro demais nos dias que isso não é possível, afinal, nem todos os alunos são culpados. Corrigindo as provas de uma sala um dia desses, constatei que apenas 8 alunos conseguiram atingir uma nota 'azul', acima da média. Isso numa prova com consulta no material, onde deveria ter textos, atividades corrigidas e anotações das explicações. Como o ânimo pode resistir a um golpe desses?
Mas aí tem outras salas muito boas, que vão super bem e até além do que espero. Mas aquela é a que não me sai da cabeça. Por que diabos a frustração quase sempre é mais forte do que a satisfação? Por que não abraço os que querem ser abraçados e não largo a mão daqueles que não querem nada? Por que é com esses que a gente acaba se importando mais?
Acho que quero um psicólogo antes que precise de um psiquiatra.
30.3.09
Enquanto o mundo não acaba
Depois de um final de semana bacana, lá vou eu pra escola de novo. Essa semana nós, de SP, deveríamos estar saltitantes, pelo menos uma boa parte, afinal, saiu o famigerado bônus por desempenho. Mas a realidade não é bem essa. Embora o meu dinheirinho caia lá, e devo dizer, foi até mais do que eu esperava, isso não resolve nem uma pequena parte dos meus problemas. Vamos ao que realmente tem me incomodado.
Estamos terminando março, meio do primeiro bimestre. Daqui um mês tenho que fechar notas, e se fizesse isso hoje, mais ou menos 70% dos alunos ficariam com nota vermelha. Eu, exisgente demais? Não. O fato é que ao menos onde leciono, parece que foi combinado entre os alunos que lição é coisa do passado. Lição de casa, então, nem pensar. De uma sala de 40 alunos, 6 me apresentaram a tal da lição de casa. Os exercícios que eles fazem em sala de aula tem um ibope maiorzinho, em média 30 alunos fazem algo.
Poderia deixar o circo pegar fogo, deixar a bomba estourar mesmo, e estou cada dia mais tentada a fazer isso. Aí, no dia do conselho, as professoras que apresentam mais notas vermelhas são as incompetentes. Mas já tô até preparada pra ouvir isso dentro de um pouco mais de um mês.
O governo criou a tal apostila do aluno, e eu nem reclamo, pelo contrário. Ali tem exercícios bem dinâmicos, muito bacanas mesmo. Uma pena o fato de eu não possuir nenhum artifício para que eles realmente façam o que é proposto ali. Afinal, o aluno que não faz nada, absolutamente nada, mas está todo dia presente na sala, é aprovado automaticamente. Automaticamente sim, da quinta série até a oitava ele vai sem nem ao menos precisar abrir o caderno, feliz da vida. Chega na oitava série reprova uma vez, no máximo. Ah, sim, reprova é culpa do professor, que não pegou na mão do infeliz e não obrigou a fazer nada.
Aí resulta num primeiro ano do ensino médio que eu tenho. Boa parte não sabe ler. Escrever então, esquece. Vontade de participar da aula oralmente, afim de conseguir alguma nota também é pedir demais. Quando eles estão na sala, as paredes geralmente me dão mais atenção. Claro, culpa minha, somente minha.
Outro dia um encostou um estilete no pescoço do colega, dentro de uma sala de aula. Adivinha? Ele está lá, normalmente, como se nada tivesse acontecido. O outro mordeu uma professora no ano passado. Não preciso falar que o menino continua lá. Alunas se xingam pelos nomes que acho que não escutaria nem numa briga dentro de um puteiro, alunos comentam cenas de filmes adultos durante as aulas, e o xingamento mais frequente na maior parte das salas é 'macaco'. O que podemos fazer? Esperar que o mundo acabe, nada mais. Infelizmente vai demorar, enquanto isso tento ensinar história e um pouquinho de civilidade para alguns poucos interessados.
Poucos.
9.3.09
Inferno Astral + o tal do Retorno de Saturno
Já escrevi tempos atrás aqui que nunca fui daquelas meninas que compravam revistas de horóscopo, nunca nem lia no jornal, sempre achei uma grande palhaçada tudo isso. Mas tem coisas que acontecem que fazem a gente pensar e aceitar certas coisas. Por exemplo o tal do inferno astral:
Segundo o astrólogo Eduardo Maia, o "Inferno Astral" só acontece quando não percebemos que precisamos sair do palco para contemplar mais o mundo e nos desapegarmos, em benefício daqueles que precisam de uma ajuda emocional ou prática. "É um período de ser instrumento para o bem dos outros e não estar tão preocupado com causas próprias", afirma. Como isto geralmente não acontece, vem a angústia, o vazio e a sensação de desorientação.
E o Retorno de Saturno:
Entre os 28 e 30 anos de idade, ocorre o primeiro retorno de Saturno, ou seja, o planeta em trânsito se posicionará no mesmo local em que ele estava no momento de nascimento da pessoa e iniciará uma nova volta em torno do zodíaco.Novamente, como em todo trânsito de Saturno, ocorre um doloroso rito de passagem, envolvendo responsabilidades, desta vez maiores do que nunca. A partir deste período, muitas coisas que antes eram parte de uma gama de opções se tornam definitivas. É o momento de determinar o que vai dar impulso aos próximos 28 anos e tudo o que é decidido tem sua repercussão e conseqüência.
Este período representa também o fechamento sobre todo o passado de dependência familiar, uma liberação final de tudo que ligava às servidões da infância e da adolescência, uma aquisição definitiva de autonomia. É o ponto final do caminho de relaxamento de responsabilidades dos pais sobre os filhos.
Deve ser isso. O cansaço, o desânimo, a falta de paciência que tem me atrapalhado nos últimos dias. Sem falar na crise da idade. Toda hora paro, penso: 'meu deus, quase trinta, o que ainda estou fazendo aqui na casa dos meus pais?' Tem também a minha crise financeira particular: 'sou professora, nunca vou ganhar mais do que eu ganho, que na verdade, é o que muitas pessoas sem uma faculdade ganham, e eu tenho duas, pra que estudei tanto?' Tem ainda a crise do profissionalismo: 'onde é que tô errando, por que raios aquele aluno não faz o que eu peço, por que aquele outro escreveu 'vaca' ao lado do meu nome no cartaz na sala de aula, e por que eu me preocupo tanto com um ou dois se a maioria me agrada, por que nos apegamos ao que não dá certo?'
Afff, quantas crises...
Ouvindo no rádio Transmission, do Joy Division. Parece uma trilha sonora mesmo. Tô me irritando já com as coincidências.
22.1.09
Vila Maçarico
Não é toda noite assim. Geralmente não é. Mas é estranho quando crescemos passando por isso, e o que pode ser um absurdo pra você que está lendo, pra mim já é só uma noite mais difícil pra dormir.
Quando criança achava que um dia tudo isso voaria alto, acho que isso fazia parte do nosso imaginário, de todas as crianças que cresceram aqui. Naquela época, algo ali soltava umas espumas pelo ar, tipo aquelas de sabão em pó, que voavam por todos os bairros vizinhos, Jardim Ana Maria, Parque Novo Oratório, Parque Capuava, Jardim Sônia Maria. Caía nas roupas no varal e manchava. Sabe Deus o que era aquilo. Hoje não solta mais nada 'visível'. Só 'inalantes' e esse barulho dos infernos.
Se a Petroquímica explodir, até onde vai acabar? Crescemos com essa pergunta nunca respondida pelos adultos. Hoje, adultos, perguntamos: Quando ela vai explodir? Quando esse barulho maldito vai acabar? E o meu ingresso pro Kraftwerk nem chegou ainda, putz...
6.12.08
Último dia
Praticamente o último dia de aula. Pelo menos pra maioria das crianças foi. Aí então todos vão com a camiseta pra ser assinada pelos colegas, máquinas fotográficas, uma alegria que não se vê ao longo do ano todo. Não que eles não seja alegres, são crianças, mas parece que o cansaço do ano todo vai embora. Enquanto nós, professores, estamos com a pilha lá no finalzinho, eles estão eufóricos.
Nem sei quantas camisetas assinei hoje. Nem em quantas fotos apareci ao lado das crianças. E sou obrigada a confessar que senti um certo aperto quando notei que vou ficar um tempo longe de alguns. Não sei se é normal, acho que sim, mas me apego muito a algumas crianças em especial, e nem sempre isso depende de nota e comportamento. Acho que é química, simplesmente. Vou sentir saudade deles, da Marilza, dos Lucas (sim, o Kowacevik e o Lima), das Carols, das Taynas, do Murilo, do Igor, do Felipe, das Gabis, do Jean... Giulia, JP, Brian, Marcelle, Marcelo, Filé, Carreira, Arilson, Ale, Thaianne. Mas espero reencontrar todos lá, logo logo, no ano que vem. Ao colocar o nome deles aqui notei que gosto muito de mais alunos do que pensei... acabei não colocando todos.
Mas de fato, a Prô Bel precisa de férias. Já!
20.9.08
Segura na mão de Deus
Tarde quente. Ela ainda era professora substituta, ou eventual, como dizem por aqui. Por isso mesmo, conhecia todos os alunos melhor do que muitas professoras titulares de cargo. Chegava a entrar 6, 7 vezes por semana em cada sala de aula, quando as outras entravam no máximo 5 vezes. Conhecia todos por nome, sabia onde a maioria morava. E por isso resolvia a maior parte dos problemas de indisciplina da escola.
Como disse, a tarde seguia quente. Com calor, os alunos se exaltam. Um se exaltou mais, foi necessário chamar a mãe,que apareceu quase na mesma hora. O diálogo que se seguiu foi mais ou menos assim:
- Mãe, o fulano fez isso, isso e isso. Ele não pode continuar agindo dessa forma. Quantas vezes a senhora já veio aqui só esse ano por conta do comportamento do fulano? (tinha aprendido a chamar o aluno pelo nome, não como 'seu filho')
- É, professora... eu não sei mais o que fazer com o meu filho não.
- Mãe, o fulano tem só 12 anos! Geralmente os problemas estão apenas começando nessa idade, mas a senhora, como mãe, tem que impor limites, ele precisa disso.
- Olha, professora, eu entreguei nas mãos de Deus. Não sei mais o que fazer, agora Deus é que vai cuidar e guiar o caminho do meu filho.
Nesse momento a professora respirou fundo. Outra vez.
_ Na mão de Deus então? É isso? Tudo bem, pode deixar.
- Posso ir embora, professora?
- Pode sim. E leve seu filho, que hoje nem Deus guiou o caminho dele.
Seguiram-se dias, semanas. A conversa foi ouvida pelas colegas, e cada vez que o garoto aprontava, a primeira coisa que falavam era: reze, em voz alta pra ver se resolve, afinal, é com Ele agora. Outras diziam pra fazer a tal da DDI, que o Raul falava. A partir daquele dia, a professora começou a entender que haja o que houver, resolva com o aluno, é quase sempre melhor. Evita maiores decepções.
25.6.08
Reta final
Hoje na escola, no último balanço da greve, ouvi declarações de amargar... Sexta-feira estarei lá na assembléia de novo. Abaixo, algumas reportagens recentes sobre o movimento:
Na Folha
N'O Globo
17.6.08
27.5.08
Os sisos e as frases não ditas
Tenho 28 anos, e todos os meus sisos já nasceram, menos um, que está nascendo desde 1800, eu acho. Sei, sei, é tempo demais. O fato é que faz um tempão que o maldito cresce um pouco, dói e pára. De tempos em tempos é isso. Um dia acordo e vejo que está doendo, que a garganta tá meio inflamada, lá pela parte da tarde tenho um pouco de febre, e à noite dói pra caramba, o maxilar, o ouvido, a cabeça, tudo.
O dia hoje foi incômodo. O dente, a garganta, a febre, as crianças, seis aulas em pé, falando, falando, falando. Além disso tudo, uma saudade. Uma vontade de falar das coisas que sinto com tanta facilidade com que dou aula, ou falo coisas inúteis. Mas não sou boa com as palavras, digo tudo pelos gestos que nem ao menos sei se são compreensíveis. Como é que se diz 'gosto de você'?
Mas agora, jogada no sofá, ouvi a música que diz o que sinto, como sempre. Ela é o tema da nova novela das 8 da Globo.
"Como pode ser gostar de alguém, e esse tal aguém não ser seu..."
PS¹:Alguém conhece algum remédio pra acabar com essa dor? Já me entupi de sorvete e de analgésicos, não melhorou. O sorvete me deixou muito mais feliz.
PS²: Alguém pode me ensinar como faz pra essa janelinha maldita do DivShare ficar do tamanho certo? Tenho sempre que postar músicas lá em pastas diferentes mesmo? Afff.
PS³: Antes que alguém indique um dentista, saibam, tenho verdadeira fobia deles. A vida inteira fujo enquanto posso, e de pensar neles, até esqueço da dor.
29.3.08
Quase Édipo
Cruel das criancinhas
Com seus comentários desconcertantes?
Adivinham tudo
E sabem que a vida é bela
(Só as mães são felizes, Cazuza e R. Frejat)
Era um dia comum. Na última aula, a professora foi dispensando os alunos que já haviam terminado a atividade. No final ficou apenas um, um dos mais inteligentes e articulados da sala. Ela estranhou, e foi ver o que estava acontecendo. Ele já havia terminado, estava fazendo pequenas correções.
- Professora, desculpe te fazer esperar, já estou terminando.
- Não tem problema, espero o tempo que for preciso.
- A senhora é casada?
- Não.
- Namora? Mora sozinha?
- Não, e moro com meus pais, assim como você.
- Por que a senhora não namora?
- Por que não, que pergunta... terminou?
- Se eu fosse dez anos mais velho, ia querer namorar com a senhora.
- Querido, se você tivesse dez anos a mais, teria 21 anos, ainda seria mais velha que você, e de onde você tirou essa idéia? Some daqui que a van tá te esperando!
- Quando eu tiver 20 anos, com quantos anos a senhora estará?
- Velha. Tchau.
E ele se foi. Ela juntou as coisas, pegou a bolsa no armário e foi para o carro. Durante os dez minutos que leva da escola pra casa foi pensando.
- Quantas vezes ainda terei que passar por isso? Onde é que estou errando na minha aula? O problema sou eu?


