Eu trabalho na educação do Estado de São Paulo desde 2002. Entrei nela por opção, comecei e gostei de lecionar. Gosto de estar entre os alunos, gosto de aprender com eles, todos os dias. Não no pretérito, no presente, gosto e continuo gostando.
Porém, nesses oito anos, nunca a educação esteve tão ruim. É incrível notar como em tão pouco tempo, já me tornei alguém que pode dizer 'nossa, lembra naquela época, quando podíamos fazer isso, ou aquilo?'. Importante ressaltar aqui que a piora não é relativa aos alunos. Eles são sempre os mesmos. A piora vem do governo, que insiste em tratar o professor como lixo, como o último escalão do funcionalismo público, como o maior, se não o único culpado pela falência do ensino público.
Há anos estamos sem um aumento de verdade. Incorporação de gratificação não é aumento, Sr Governador, é aumento de arrecadação pra cofre público, no máximo. Há anos o Estado não oferece especializações, como 'naquela época' em que comecei a lecionar. Na TV tem propaganda disso, mas sou prova de que não tem absolutamente nenhuma opção para me aperfeiçoar, quero muito voltar a estudar.
A escolas estão num abandono que dá pena. Como a carreira de professor já não é nada atrativa, dia após dia professores afastam-se e deixam a sala de aula em busca de algo mais lucrativo e menos humilhante. Na minha escola, por dia, temos em média 10 turmas sem professor, já disse isso aqui. Eu, por exemplo, cuido de duas salas nos últimos 3 dias. Cuido, porque isso já não é lecionar. Acha que tô ganhando dobrado? Nem um centavo a mais no meu já mirrado salário. Faço isso simplesmente para que os alunos não se matem nem destruam e escola.
Acho incrível os pais que não notam que o filho vai pra escola e não tem aula. Acho incrível a imprensa ser tão vendida, ninguém fala sobre isso. Afinal, falar sobre a situação deprimente da educação paulista é acabar com a campanha presidencial do Sr. Serra, né? Ele não é o único culpado da nossa situação, mas o partido dele sim. Ano após ano, só fez piorar a educação. Reclamar de salário já tornou-se ridículo perante a nossa situação.
Mas afinal, quem liga pra educação? Acho que já é cachorro morto.
...
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir...
Deus lhe pague.
7.7.10
Feel on black days
29.6.10
Keep yourself alive!
Ainda estamos no final do segundo bimestre escolar, mas a neura já começou, o que eu chamo de terrorismo psicológico. Hoje, numa reunião semanal que fazemos na escola do Estado, nossa coordenadora já nos informou que não devemos deixar os alunos com notas vermelhas. Se ele tirou 3,5 é melhor arredondar pra 5 mesmo. É sério. Justificou-se ainda dizendo que se o aluno ficar com vermelha, temos que ter tudo documentado, provando o motivo pelo qual o incompetente, ops, o aluno, não teve nota. Continuou dizendo que diretora, supervisora e dirigente iriam lá na escola comprovar tudo.
É engraçado como as pessoas perdem o senso do ridículo. Francamente, um aluno no Estado só reprova se for por falta, e o fulano tem que faltar muuuuito. Tem mais, com nota vermelha só fica aquele que não faz, não entrega nada e não participa. Tem aluno analfabeto (e muito) que tem nota, por simplesmente participar da aula, dos debates. Mas agora eu teria que deixar todo mundo com notas bonitinhas, até o vagabundo que vai pra escola só pra quebrar tudo e traficar.
Aliás, quebrar tudo tem sido uma das disciplinas mais assistidas pelos pequenos lá da minha escola. Afinal, a molecada tem ido pra escola e tem ficado sozinha, das 13h às 18h20. Não temos professores, a maioria afastados por motivo de doença. Eu mesma fiquei um mês por causa da cirurgia. Não temos professores substitutos, nada. Sendo assim, as crianças ficam lá, largadas, sem aprender absolutamente nada (que preste). Mas nem é só isso. Os que tem aula também estão prejudicados, pois junte cinco turmas de 40 alunos sem professor e veja se com o barulho que eles fazem é possível estudar. E não são só cinco salas por dia sem professor.
Por que será que diretoras, supervisoras, dirigentes, quando sentam a bunda na cadeira fofinha nunca mais voltam pra sala de aula? Será porque o trabalho é um lixo? Será que por acaso não é esse povo mesmo que está jogando o meu trabalho no lixo?
Acreditem, já sou uma espécie ameaçada de extinção.
Embora a música do título seja do Queen, agoratô ouvindo Semáforo, do Vanguart. Veio bem a calhar também.
Hoje é terça-feira
O céu borrou a cor
Ó minha mão do céu
Ó meu pé do chão
Ó minha mão do céu
Ó meu pé do chão
Eu não ouço vocês
Eu não ouço vocês (mais alto)
Eu não creio em vocês
Só acredito no semáforo
Só acredito no avião
Eu acredito no relógio
Só acredito
Eu só acredito
7.5.10
Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro
Tem dias mais difíceis do que os outros.
Não sei o motivo, mas tem dias em que simplesmente não consigo mais ouvir aquele papo idiota de 'bacana mesmo é a Bel, gordinha que se gosta, se garante, tá sempre pra cima.' Hoje na escola ouvi isso, senti vontade de sair correndo. Na verdade eu estou saindo correndo, poucos sabem, mas estou.
Se garantir? Quem fala isso não imagina o que é entrar numa loja e ter que levar a roupa que tem no seu tamanho, e não a que você quer. Não sabe o que é ouvir as pessoas dizendo 'nossa, mas você come tão pouco...' e interrompendo antes que diga '... então por que é tão gorda?'. Não sabe o que é olhar todos os dias no espelho e imaginar-se em outra vida, em outro corpo. Não sabe o que é ter que arrumar mil e um artifícios pra um homem olhar pra você sem ver o seu peso. Tornar-se atraente apenas pela inteligência e um pouco de beleza no rosto é, muitas vezes, desgastante. Não sabe o que é sentir-se como um prêmio de consolação, com tanta mulher gostosa no mundo, é isso que às vezes eu sinto. Rosto, sorriso bonito é o caralho. Tô de saco cheíssimo disso.
Neura? Sim, às vezes sei entrar numa neura profunda.
Amarga? Às vezes também sou.
Viu? Não me garanto, não sou 'pra cima' o tempo todo. É só olhar no espelho que não dá pra ficar muito pra cima.
20.4.10
Quanto pó!
Isso aqui anda tão sem graça que ando pensando em assassinar meu próprio diário. Verdade é que a minha vida não tem nada de tão interessante que interessa assim a tanta gente. Minha vida anda tão desinteressante que recentemente criei aquele formspring e não consegui ter 10 perguntas, eu acho. Ou eu sou uma mala aberta ou ninguém quer mesmo saber nada de mim. A segunda alternativa é muito mais provável.
Ok. Tirado o pó, fecho de novo o diário e guardo mais um pouco. Acredito de verdade que algo muito interessante vai acontecer nos próximos meses, aí ele poderá voltar a ser útil. "Voltar a ser útil", quanta pretenção a minha, rss...
Ficou com pena? Visita lá, comenta, pergunta, xinga. Tô sofrendo de carência virtual mesmo.
http://twitter.com/bergasparotto
http://www.flickr.com/photos/belgasparotto
http://www.formspring.me/belgasparotto
19.3.10
Filha modelo: procura-se
Poucas coisas me deixam tão puta quanto a situação que eu vivo na minha casa. Não é minha casa, na verdade. Tenho 30 anos, moro com meus pais, e a cada dia se torna mais evidente que não moro com eles, moro DE FAVOR com eles, isso sim. É mais ou menos como se a moradia fosse a parte deles, e a minha parte fosse ser uma filha de 10 anos. Acontece que esse modelo não me cabe mais.
Hoje fui ver uma amiga, 5 anos sem vê-la. Amiga de longa data, queridíssima, morando no exterior. Saí do trabalho, encontrei-a, jantamos e fomos continuar a conversa na casa dela. A conversa foi cortada depois da 1h da manhã, afinal, trabalho no dia seguinte. Ao sair, olhei o celular, 9 ligações perdidas de casa. Justificativa? Não pensaram que eu voltaria tão tarde, eu estou errada. Detalhe? Eu entro só às 13h no trabalho.
Das duas uma: ou jogo meu celular no lixo, ou saio de casa. Pensando bem, as duas opções devem ser o passo para a felicidade.
17.2.10
O ano nem começou direito...
... e eu já tô irritada com a maravilhosa organização da minha escola. Da minha escola não, claro, da Secretaria da Educação de SP.
Os alunos entram em sala amanhã. Os cadernos do aluno, a tal apostila que o Estado manda pra eles, já chegaram. Mas eu não vi nem a cor de nenhum. Que ótimo, é lindo falar na televisão que o material do aluno já chegou, que tá investindo trocentos mil reais nisso e blá blá blá. O que ninguém sabe é quando os professores, os mesmos que terão que trabalhar com tais materiais, terão acesso ao mesmo.
Ok, primeiros dias de aula é melhor trabalhar de outra forma. Quem sabe um texto sobre meio ambiente, sociedade, relacionamentos, etc.? Só se for passado na lousa ou ditado, afinal, não se tem onde tirar cópias na escola. Durante todos os anos que tenho de magistério sempre coloquei dinheiro do meu bolso pra fazer cópias de atividades, textos, provas. Mas chega uma hora que só o valor que eu gasto é que aumenta, meu salário não. Logo, só idiota pra continuar gastando seu dinheiro no que nem o Estado gasta, real melhoria dos métodos de ensino.
E o ano tá só começando...
4.2.10
Dias de fúria
Pra ler ouvindo Pé na Porta, Soco na Cara, do Matanza.
Foi difícil, mas acho que entendi que os meios de comunicação mais atuais do que o telefone, como orkut, twitter, blog e msn são tão práticos quanto o precursor. Prá quê tanta gentileza afinal? Não quer falar com alguém, simplesmente desligue na cara, ou melhor, tire do gancho.
Já tentei ser educada, gentil. Sempre detestei insistência, e hoje temos por toda a internet um bando de loucos que vivem mendigando contatinhos, depoimentinhos, fotinhos, etc. Quando é desconhecido é simples, clico no ignorar, bloquear, negar, e por aí vai. Problema é quando a insistência vem de alguém conhecido, não amigo, claro.
Decidi que foda-se o que os outros pensam e quantas vezes vão se revoltar pela minha falta de civilidade, companheirismo, delicadeza, amizade. Amizade? Será que amizade não é algo recíproco? Deveria ser pelo menos. Se eu não tenho interesse numa amizade, não rola, sorry. Egoísmo? Sim, talvez. Mas realmente, amizade que não acrescenta nada, e se perigar, subtrai, não é amizade, é muleta. Por isso acho que hoje a palavra amizade anda subvalorizada, acham que amizade é uma obrigação. Acredite, tem gente que acha que temos obrigação de sermos seus amigos. E que fique bem claro o tipo de interesse ao qual me refiro, ok? Não falo em vantagens, falo em experiências a serem trocadas, emoções, conversas, risos, segredos. Isso tudo, a afinidade, faz de alguém interessante ou não, na falta dela.
Esses dias fiz uma limpeza nos meus contatos e e-mails. Quem importa ficou, quem não importa, sorry, mas não acho necessário ficar fazendo política de boa vizinhança a troco de nada, ou pior, tendo prejuízos ridículos. Aos quase 30, é isso que decido e acho que tenho esse direito. Egoísmo, sim. Mas piedade e pseudo amizade não sustenta nem acrescenta. Como disse, periga sair no prejuízo.
Ou fazia isso, ou cometia um suicídio virtual.
15.12.09
Super High Tech
26.10.09
Mais confissões
Sabe quando a gente passa uma vida toda driblando algo que a gente já sabe, mas prefere fazer de conta que não sabe? Aí, quando nos damos conta, a verdade é tão verdadeira que assusta.
Acho que tô me sentindo um patinho feio hoje.
Numa vala qualquer do teu cemitério racional
Numa esquina qualquer da tua cidade natal
E é um Deus nos acuda
Ninguém te ajuda
De madrugada quando as fadas dizem: "!tchau!"
E o que se escondia no porão
Sai pelos poros pela transpiração
E lava tua alma
Lava de vulcão
Porão - Fernando Deluqui/Humberto Guessinger
19.10.09
Confissões Musicais
A educação já não me satisfaz, cada dia vejo ela se deteriorar, pouco a pouco, e me sinto de mãos atadas. Hoje ouvi uma história de que nota 3,5 arredonda-se pra 5. Desde o início do ano se quero trabalhar num ambiente limpo eu mesma devo varrer minha sala. Até o estacionamento do shopping aumentou, menos o meu salário. Mas ainda sou bem moça pra tanta tristeza...
CANTEIROS
(Fagner roubando um pedaço do poema Marcha, da Cecília Meireles)
Quando penso em você
Fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa
Menos a felicidade
Correm os meus dedos longos
Em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego
Já me dá contentamento
Pode ser até manhã
Sendo claro, feito o dia
Mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter do mato
Um gosto de framboesa
Pra correr entre os canteiros
E esconder minha tristeza
E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza ...
E deixemos de coisa, cuidemos da vida
Senão chega a morte
Ou coisa parecida
E nos arrasta moço
Sem ter visto a vida
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
São as águas de março fechando o verão
É promessa de vida em nosso coração.
28.9.09
Dos interesses
Era uma vez uma menina que não via maldade em ninguém. Nos tempos mais remotos já ajudava os colegas da sala de aula com os deveres, trabalhos e contas. O tempo passou e ela sempre acumulou elogios à sua prestatividade, sua prontidão. Era capaz de ouvir durante horas uma amiga chorando, perder um domingo de sol pra ajudar nos deveres da escola, acordar cedo num sábado só pra acompanhar alguém numa missão.
O tempo passou mais um pouco e chegou a maturidade. Um dia percebeu que seus problemas, quase todos, sempre ficaram em segundo plano. Um dia ouviu falar que qualquer relacionamento só acontece na base da troca e a partir daí começou a analisar tudo o que recebeu e tudo o que compartilhou. Percebeu que as maiores frustrações ao longo da vida, até então, foram decorrentes de falta de atenção, pouco caso, falta de compromisso das pessoas que ela considerava mais próximas.
Notou que o problema dos outros sempre foi maior, os dela sempre foram quase nada, segundo plano. Notou o número de telefonemas e recados recebidos com os dizeres 'preciso de um favor seu', comparou esse número com o tanto de vezes que pediu algo pra alguém e foi atendida.
Percebeu ainda o quão disponível sempre se colocou a todos que precisassem, e comparou com o tanto de disponibilidade que sempre encontrou ao seu redor. Percebeu ainda o quão traída nessa disponibilidade ela já foi. Quantas vezes deixada pra trás, falando sozinha, pedindo pra ajudar.
Naquele dia percebeu que teve pouquíssimos amigos durante a vida. Boa parte desses amigos, alguns ainda presentes, sempre estiveram interessados na ajuda, na disponibilidade. Quando ela não existe, desaparecem. Naquele dia ela desejou como nunca o egoísmo. O desejo passou rápido, ela nunca foi egoísta e ao menos disso pode se orgulhar.
Os amigos? Passou a analisar antes o que cada um quer dela. Deseja apenas os que a procurem por nada, de graça, assim como ela procura as pessoas. Tornou-se uma pessoa mais sozinha, mas ainda insiste em acreditar nas pessoas. De graça.
14.9.09
A dor e a delícia da inclusão digital
Ontem assistindo a um video do Deep Purple de 10 anos atrás e conversando sobre o mesmo show, senti uma ponta de nostalgia. O ano era 1999, o video em questão era In Concert With the London Symphony Orchestra, e o mesmo show aconteceu em São Paulo, no Via Funchal, mas eu não estava lá. Quem esteve conta histórias incríveis, como por exemplo, o público pedindo pra ouvir rock enquanto a Orquestra Sinfônica de São Paulo tocava. Outro ponto alto deve te sido todo mundo saindo do lugar e correndo para perto do palco quando Dio entrou. A cara de inveja do Gillan também deve ter sido algo memorável.
Esse é um dos inúmeros shows que só sabemos o que os presentes contam, ninguém tinha câmeras fotográficas digitais que cabem no bolso da calça, nem celulares que filmam, nem filmadoras ultra compactas, nada. Para entrar com uma câmera num show era necessário saber onde escondê-la. Opções não faltavam, mas faltava coragem pra enfiar uma câmera no pacote de pão de forma, ou dentro de um panetone sem o recheio, ou abrir um pacote de salgadinho e vedar de novo... não era fácil, só valia a pena se a câmera fosse boa mesmo e se você fosse ficar lá na frente.
Hoje todo mundo tem um celular que tira fotos razoáveis. As câmeras digitais que fotografam e filmam com qualidade aceitável são tão pequenas e fininhas quanto uma carteira, e não precisam ser escondidas. Quando começa o show, pra quem assiste do fundo da platéia, o número de visores acesos é um espetáculo a parte. No dia seguinte é possível assistir ao show inteiro pelo youtube e ainda salvar fotos da apresentação.
Mas não acho ruim isso tudo, pelo contrário, acho o máximo poder rever alguns detalhes perdidos durante o show, ou até ver como foi em outros países, em outros estados. O que me intriga mesmo são aquelas pessoas que durante o show inteiro ficam tirando fotos delas mesmas, de costas para o palco. Já cansei de ver grupos inteiros de amigos que durante o show conversam, riem, fotografam, mas tudo entre eles, como se a banda fosse apenas um acaso. Não contentes, essas pessoas costumam atrapalhar quem está ali pra ver o show, pois tentam falar num volume mais alto do que a banda, sem falar nos malditos flashes na nossa cara. Eu não vi, mas sei de fonte segura que num show tinha um cara filmando ele mesmo cantando, de olhos fechados, como se fosse ele o rock star.
Muita coisa mudou em apenas 10 anos. Pra melhor e pra pior.
11.8.09
Vergonha na cara, eu tenho.
Então tá... o recesso escolar foi prorrogado em São Paulo, o Estado, como sempre, ATRASADO. Mas o atraso é de se esperar, levando-se em consideração o interesse de quem estava em jogo. Agora, na hora de voltar, a grande preocupação, a reposição. Ok, aos sábados é possível, só gostaria de saber em qual escola todos os alunos e professores comparecem aos sábados. O que se vê é meia dúzia de alunos em cada sala, enrolando pra passar o dia e sem merenda.
Agora, o Sr. Secretário da Educação diz que algumas aulas podem ser repostas na Semana do Saco Cheio. HELLLOOOOOO!!!! Isso não existe no Estado!!! Na faculdade existe, mas certamente não é algo legalmente aprovado, é 'decretado' pelos alunos. No Estado trabalhamos direto de agosto até 21, 22 de dezembro! S eo Sr. Secretário da Educaação não teve a capacidade de olhar, simplesmente OLHAR um calendário escolar, era bom que isso fosse logo providenciado. 200 dias letivos? Já foi dito que não seriam obrigatórios, mas o Sr. Secretário manda mais, e tem que mostrar isso, vai repor sim.
Uma amiga me disse que é só pra inglês ver. Não acho que inglês seja tão burro, nem eles cairiam nessa. Tem dias em que sinto VERGONHA de ser professora do Estado. VERGONHA de ter um secretário que não sabe o que é um calendário escola. Ah, e claro, se não teve a capacidade de olhar um pedaço de papel, muito menos conhece a realidade na sala de aula.
Só VERGONHA me resta.
27.7.09
A Gripe
Então as aulas recomeçam hoje, pelo menos na rede estadual de São Paulo. Acontece que por aqui tá todo mundo com medo da gripe... eu que sou alérgica não posso nem dar minhas espirradinhas em paz que já tem alguém olhando feio. Em alguns lugares acharam melhor suspender as aulas por mais uma semana, mas o Estado prefere fazer de conta que nada está acontecendo.
Desde a semana passada tá todo mundo esperando alguma posição dos dirigentes pra saber o que fazer, e foi decidido que nós, meros professores, deveremos diagnosticar quem apresentar sintomas da gripe e levar ao médico! Logo nós, que nem direito a ficar doente temos! Se nós pegamos alguma doença, geralmente vamos doente pra escola, porque a maioria não consegue atestado médico.
Não sei se o correto seria realmente adiar o início das aulas, o que sei é que algumas redes já estão optando por isso, acredito que o bom senso seguir as outras redes. Mas senso é algo bem raro na realidade educacional. O que o Estado faz é sempre passar a responsabilidade pra frente, não é om ele, nada está acontecendo. E se acontecer, a culpa é do professor, claro, mais uma culpinha não faz mal pra quem já tem tantas.
Não vai demorar muito pra algum 'datena' aparecer falando que o 'professor negou socorro', aguardem.
29.5.09
Dos escândalos e de toda a hipocrisia que permeia a educação paulista
Então tá, mais um livro 'impróprio' nas mãos das pobres e inocentes crianças. Eu li Jorge Amado na adolescência, e acho que não virei uma pessoa pervertida depois de ler a singela definição do órgão sexual feminino que ele dava em um livro, xibiu. Crescemos ouvindo palavrões em músicas, conversas, simulações bem sensuais nas novelas da globo, 'causos' do mundo cão nas emissoras por aí... qual o susto?
Ah é, a escola tem que educar. Os pais não, a escola.
Ok, não concordo com o fato de alunos da 3ª série terem recebido aquele livro, são realmente muito pequenos, mas o de poesias do Manuel de Barros, me poupe. Isso foi pra garotada de 5ª ou 6ª série, já tem bastante idade pra ter escutado de tudo e mais um pouco, e também deveria ter idade pra saber o motivo daquela palavra estar ali, entender que não é algo gratuíto, que faz parte de toda uma obra. Meninas de 5ª série engravidam por aí e temos que apresentar poeminhas infantis pra sempre? Acho que o mundo tá mudando um pouco...
Enquanto isso, continuo com a minha pose de professorinha-boa-moça, que não faz nada de errado, que não bebe, que não sai, que não curte música, que não fala palavrão, que não trepa, que não vive, só dá aula. Aliás, não dou, vendo barato, bem barato.
Eu tenho medo de acordar
E encontrar
um heterônimo no meu lugar
refém da alma que eu lhe vendi
usando o que esqueci
pra ser feliz quando eu dormia em paz
Esqueça os sonhos e tudo mais
corra e não olhe pra trás
roube tudo o que for capaz
corra e não olhe pra trás
E não se iluda, nem tudo passa
ouça o conselho que dou de graça:
cuidado com o que desejar.
Nem sempre o melhor é a verdade
O tempo é pouco pra quem não tem a eternidade
com a qual se contar.
Tragam-me a cabeça de Lester Bangs, Banzé.
16.4.09
Da delicadeza da poesia ao duro dia-a-dia
Ou isto ou aquilo
Cecília Meireles
Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Eu também ando precisando escolher entre um e outro. Ou sou a boazinha, simpática e idiota, ou sou a maldosa, grossa e menos idiota. Porque hoje em dia me parece que está se saindo bem quem acumula as segundas características, afinal, ninguém vai arriscar levar uma patada de graça, nem eu. Fato que me enquadra nas pessoas que possuem as primeiras características, dentre elas, idiota. É como uma idiota que eu me sinto quando, pra evitar ainda mais conflitos no grupo de trabalho, fico quieta, boazinha e simpática. Acho que vou começar a escolher pelo 'aquilo', 'isto' não está mais me servindo.
15.4.09
Das minhas frustrações
Acho que ninguém além dos que estão dentro da sala de aula pode falar sobre as frustrações que enfrentamos todos os dias. Desde que entrei para a Educação sempre me perguntei 'por que raios os professores não tem acesso facilitado com um psicólogo?'.
Lidamos todos os dias com problemas de aprendizagem, de indisciplina, familiares, patológicos, etc. Aprendemos a contornar passando por cima de todos esses problemas, mas não resolvemos quase nenhum deles. E o pior, isso vai acarretando as nossas famosas frustrações também.
Como é que conseguimos chegar ao final de um período com um sorriso no rosto? Quase sempre eu consigo, mas me cobro demais nos dias que isso não é possível, afinal, nem todos os alunos são culpados. Corrigindo as provas de uma sala um dia desses, constatei que apenas 8 alunos conseguiram atingir uma nota 'azul', acima da média. Isso numa prova com consulta no material, onde deveria ter textos, atividades corrigidas e anotações das explicações. Como o ânimo pode resistir a um golpe desses?
Mas aí tem outras salas muito boas, que vão super bem e até além do que espero. Mas aquela é a que não me sai da cabeça. Por que diabos a frustração quase sempre é mais forte do que a satisfação? Por que não abraço os que querem ser abraçados e não largo a mão daqueles que não querem nada? Por que é com esses que a gente acaba se importando mais?
Acho que quero um psicólogo antes que precise de um psiquiatra.
30.3.09
Enquanto o mundo não acaba
Depois de um final de semana bacana, lá vou eu pra escola de novo. Essa semana nós, de SP, deveríamos estar saltitantes, pelo menos uma boa parte, afinal, saiu o famigerado bônus por desempenho. Mas a realidade não é bem essa. Embora o meu dinheirinho caia lá, e devo dizer, foi até mais do que eu esperava, isso não resolve nem uma pequena parte dos meus problemas. Vamos ao que realmente tem me incomodado.
Estamos terminando março, meio do primeiro bimestre. Daqui um mês tenho que fechar notas, e se fizesse isso hoje, mais ou menos 70% dos alunos ficariam com nota vermelha. Eu, exisgente demais? Não. O fato é que ao menos onde leciono, parece que foi combinado entre os alunos que lição é coisa do passado. Lição de casa, então, nem pensar. De uma sala de 40 alunos, 6 me apresentaram a tal da lição de casa. Os exercícios que eles fazem em sala de aula tem um ibope maiorzinho, em média 30 alunos fazem algo.
Poderia deixar o circo pegar fogo, deixar a bomba estourar mesmo, e estou cada dia mais tentada a fazer isso. Aí, no dia do conselho, as professoras que apresentam mais notas vermelhas são as incompetentes. Mas já tô até preparada pra ouvir isso dentro de um pouco mais de um mês.
O governo criou a tal apostila do aluno, e eu nem reclamo, pelo contrário. Ali tem exercícios bem dinâmicos, muito bacanas mesmo. Uma pena o fato de eu não possuir nenhum artifício para que eles realmente façam o que é proposto ali. Afinal, o aluno que não faz nada, absolutamente nada, mas está todo dia presente na sala, é aprovado automaticamente. Automaticamente sim, da quinta série até a oitava ele vai sem nem ao menos precisar abrir o caderno, feliz da vida. Chega na oitava série reprova uma vez, no máximo. Ah, sim, reprova é culpa do professor, que não pegou na mão do infeliz e não obrigou a fazer nada.
Aí resulta num primeiro ano do ensino médio que eu tenho. Boa parte não sabe ler. Escrever então, esquece. Vontade de participar da aula oralmente, afim de conseguir alguma nota também é pedir demais. Quando eles estão na sala, as paredes geralmente me dão mais atenção. Claro, culpa minha, somente minha.
Outro dia um encostou um estilete no pescoço do colega, dentro de uma sala de aula. Adivinha? Ele está lá, normalmente, como se nada tivesse acontecido. O outro mordeu uma professora no ano passado. Não preciso falar que o menino continua lá. Alunas se xingam pelos nomes que acho que não escutaria nem numa briga dentro de um puteiro, alunos comentam cenas de filmes adultos durante as aulas, e o xingamento mais frequente na maior parte das salas é 'macaco'. O que podemos fazer? Esperar que o mundo acabe, nada mais. Infelizmente vai demorar, enquanto isso tento ensinar história e um pouquinho de civilidade para alguns poucos interessados.
Poucos.
17.3.09
Vergonha alheia
Poderia se chamar também 'O dia em que afirmei que começo a ter vergonha de falar que sou professora'
Primeiro, no final do ano passado, a famigerada 'provinha' para os professores contratados. Sinceramente, no primeiro concurso que prestei no Estado passei, e hoje sou professora titular de cargo desde 2006, na rede estou desde 2002. E eis que teve gente que, com 15, 20, 25 anos de sala de aula, teve a capacidade de zerar a nota da 'provinha'. Recurso vai, recurso vem, a nota foi deixada de lado, a atribuição seguiu como se nada tivesse acontecido, e a ilustríssima secretária da educação soltou uma cartinha com um tom de 'a minha vingança será malígna'. Ok, próximo probleminha.
Essas malditas apostilas que o governo resolveu mandar pras escolas. Ele tem lá suas razões, afinal de contas, tem um povo aí aposentando que zera numa prova de conhecimentos da própria disciplina que leciona. Enfim, o fato é que desde o ano passado essas apostilinhas contém alguns errinhos, tais como ensino com C, Idade Média no século XIX, e agora, na mídia, fresquinho, a América do Sul sem o Equador e com dois Paraguais. Além do mais, nem todos os alunos receberam a tal apostila, eu mesma tenho uma sala que não tem. Não queria justificar, mas sou obrigada a dizer que a rede tem os profissionais que merece mesmo. Não queria principalmente porque sou uma delas, e, sem humildade, sou muito professora. Sim, preparo aula, atividades diferenciadas, busco informações novas, soluciono dúvidas, indico sites, livros, filmes.
Ah, ainda tem o problema da infra estrutura das escolas. Minha nossa, tivemos janeiro inteiro, metade de fevereiro, e agora, AGORA, estão fazendo uma reforma na escola em que leciono. Aquela poeira, aquele bate-estaca o dia todo, aquele cheiro de tinta. Sabe como é? Pois é, um ambiente super propício para o estudo.
E nem comentei que qualquer profissional por aí, com um nível técnico, recebe um salário maior do que o meu. Não tô comentando de salário não. Tô comentando da situação cada vez mais ridícula em que o ensino no Brasil está sendo colocado. Ridículo. É desanimador saber que ainda tenho tantos anos pela frente, e saber que é muito pouco provável que um dia isso melhore. Se não piorar, acho que já me dou por satisfeita.
3.11.08
Não consigo ser alegre o tempo inteiro
Principalmente quando começo a ver a decoração natalina pela cidade, e as lojas cheias de árvores de natal pra todo lado. Aos 28 anos sou obrigada a confessar, é verdade... não gosto dessa época. E não é que eu não seja uma pessoa festiva e tal, pelo contrário, pra mim, tudo é festa. Mas essa época é difícil. Vamos às prováveis causas:
Faz seis anos que sou professora. Essa época do ano é a mais tensa dentro de uma escola. Os alunos não aguentam mais, os professores também não, todos querem férias, e é a época em que todo mundo quer nota, principalmente nós, professores. É só stress.
Festas de final de ano. Sabe, não tenho saco pra confraternizações, principalmente no trabalho. É sempre a mesma coisa, o povo que passa o ano todo querendo se matar, de repente, viram todos amigos. Tô fora, minha parte eu sempre quis em dinheiro.
Festas familiares. Não, o problema não é ser festa de família, mas aqui em casa é estranho. Fica todo mundo esperando dar a hora, aí se abraça, come e vai dormir. Emocionante.
Acrescente a tudo isso sucessivas experiências ruins. É, anos atrás, Natal e Ano Novo era motivo de apreensão e privação de certas coisas. Não vem ao caso comentar cada uma delas, o fato é que por um bom tempo, não tive 'boas festas' não.
Acho que tudo isso me deixou traumatizada. Por essas e outras que quanto mais chega perto o final do ano, mais tenho vontade de sumir do planeta viajar. Mas acho que a questão nem é viajar, ir pra longe... acho que seria só sair do meio em que passo o ano todo, ou que passei os outros finais de ano. Será que preciso de terapia?
E que venha logo o carnaval!!!
PS: Preciso voltar mais vezes por aqui, tanta coisa acontecendo...

