20.9.08

Segura na mão de Deus

Tarde quente. Ela ainda era professora substituta, ou eventual, como dizem por aqui. Por isso mesmo, conhecia todos os alunos melhor do que muitas professoras titulares de cargo. Chegava a entrar 6, 7 vezes por semana em cada sala de aula, quando as outras entravam no máximo 5 vezes. Conhecia todos por nome, sabia onde a maioria morava. E por isso resolvia a maior parte dos problemas de indisciplina da escola.

Como disse, a tarde seguia quente. Com calor, os alunos se exaltam. Um se exaltou mais, foi necessário chamar a mãe,que apareceu quase na mesma hora. O diálogo que se seguiu foi mais ou menos assim:

- Mãe, o fulano fez isso, isso e isso. Ele não pode continuar agindo dessa forma. Quantas vezes a senhora já veio aqui só esse ano por conta do comportamento do fulano? (tinha aprendido a chamar o aluno pelo nome, não como 'seu filho')

- É, professora... eu não sei mais o que fazer com o meu filho não.

- Mãe, o fulano tem só 12 anos! Geralmente os problemas estão apenas começando nessa idade, mas a senhora, como mãe, tem que impor limites, ele precisa disso.

- Olha, professora, eu entreguei nas mãos de Deus. Não sei mais o que fazer, agora Deus é que vai cuidar e guiar o caminho do meu filho.

Nesse momento a professora respirou fundo. Outra vez.

_ Na mão de Deus então? É isso? Tudo bem, pode deixar.

- Posso ir embora, professora?

- Pode sim. E leve seu filho, que hoje nem Deus guiou o caminho dele.

Seguiram-se dias, semanas. A conversa foi ouvida pelas colegas, e cada vez que o garoto aprontava, a primeira coisa que falavam era: reze, em voz alta pra ver se resolve, afinal, é com Ele agora. Outras diziam pra fazer a tal da DDI, que o Raul falava. A partir daquele dia, a professora começou a entender que haja o que houver, resolva com o aluno, é quase sempre melhor. Evita maiores decepções.

2 comentários:

julio de castro disse...

é, a gente sempre aprende isso em algum momento.

disse...

Teve uma vez que uma tia invadiu minha sala e deu uma surra no sobrinho lá mesmo.
É medo e frustração de lá e de cá. E nós, professores acabamos sendo mais responsáveis do que poderíamos ser.
Beijos